Erundina
A deputada federal Luiza Erundina participou da abertura do Curso de Férias Latino-Americano promovido pelo Instituto Universitário Sophia para América Latina e Caribe (Sophia ALC) com o tema “As bases teórico-práticas do paradigma da fraternidade: Projeções nas ciências sociais, políticas, econômicas e culturais”, na Mariápolis Ginetta.
 
Qual a contribuição desta experiência (Sophia) para a crise atual no país?
O que ouvi na primeira parte da manhã de hoje vem trazer reflexões e contribuições inspiradoras para o momento que vivemos no Brasil, também na América Latina e no mundo.  O mundo está convulsionado, e esta perda de valores, de conceitos, que afeta inclusive o projeto de Humanidades nos desafia, mas ao mesmo tempo, denuncia uma virada histórico-social.
Os paradigmas, os modelos, os conceitos, as teorias estão todas em cheque, e isso é um sintoma de que um ciclo histórico-social – este que nós estamos vivendo – está terminando. Há uma transição social e é uma transição dolorosa, escura; não se percebe a luz no final do túnel.
Então, trazer jovens da América Latina para refletir sobre esses aspectos ético-filosóficos tem tudo a ver para atender a necessidade que o Brasil vive, assim como da América Latina e do mundo.
E vem bem ao encontro da preocupação do papa Francisco, quando ele chama a atenção para a necessidade de que se faça política, e a política na linha do que falava o papa Pio XII: “a política é uma forma de se fazer caridade”. Da mesma forma, Chiara Lubich dizia que a política é “o amor dos amores”. Por sua vez, dom Paulo Evaristo Arns (arcebispo emérito da cidade São Paulo) diz que a pior forma de fazer política é não fazer política, porque tudo é política.
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Como a senhora vê o futuro político?
É muito promissor que os jovens estejam se encantando com a política, se interessando por ela e que tenham aptidão para protagonizar esse momento.
Modelos de partidos, de instituições partidárias e projetos políticos estão envelhecidos e é preciso recriar tudo isso, sem desconhecer o passado, porque você não cria o futuro passando pelo presente sem fazer referência ao passado, mesmo que seja para negar dialeticamente essa referência. E há muita coisa boa também que foi feita no passado; mas diria que é preciso um salto qualitativo; eu diria até um salto quântico, para que a gente retome o projeto político em outras bases, com outras inspirações. A juventude é a mente e o coração mais abertos para receber essa mensagem e liderar esse processo para frente de um novo tempo, uma nova humanidade, um novo mundo, uma nova política.
É incrível como a fala de Piero Coda (cuja reflexão de abertura foi apresentada em vídeo) nos trouxe a inspiração que o Ideal de Chiara Lubich nos deu sobre Jesus Abandonado, a concepção do Amor, a superação da dor, o sentido de unidade, unidade na diversidade. A fala dele estava embebida desta inspiração, abrangendo todos os aspectos da organização humana, da organização social. Ele fechou com chave de ouro, a meu ver, sua fala ao dizer: “viver a unidade na diversidade, viver a comunhão na liberdade”. E mostra o quanto o Ideal de Chiara é oportuno, tão necessário no mundo de hoje.
Espero que estes jovens que vieram até aqui descubram esta verdade e incorporem, para além das teorias e conceitos, que são uma base importante, mas sem isso não se encarna na relação entre as pessoas, torna-se página virada, arquivo morto e não acrescenta nada. É preciso viver essas coisas com as limitações que cada um tem, mas precisa jogar para frente para que outras pessoas a recebam e recriem no seu tempo e no seu momento, onde vivem.
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