«Em 2012, quando estava hospedada com a família de um amigo, entraram em casa três homens armados. Depois de nos terem agredido e colocado no chão, com as pistolas apontadas para nós continuavam a gritar: “onde está o dinheiro?”. O dono da casa, dirigindo-se a um deles, começou a dizer que o perdoava, mas que aquele não era o modo certo de agir. Diante dessas palavras ele se enraiveceu ainda mais e todos ficamos apavorados, pensando que algo bem pior podia acontecer. Mas, surpreendentemente, o ladrão começou a chorar e pedir desculpas. Os outros dois, que enquanto isso tinham recolhido as coisas para levar, conseguiram fugir com o carro da família. O homem – que parecia ser o chefe do grupo – perguntou se entre as coisas que tinham pego havia algo importante, porque, no caso, ele devolveria. O pai disse que podia ficar com tudo, mas que precisava do carro para trabalhar. E o ladrão prometeu que logo iria devolvê-lo. Antes de ir embora pediu perdão a cada um. Meia hora depois o carro foi encontrado pela polícia, intacto.

Pessoalmente, mesmo se aquele homem havia pedido perdão, eu tinha uma certa dificuldade para perdoar. Não aceitava que existissem no mundo pessoas que pudessem decidir sobre a minha vida ou das pessoas que amo. Provavelmente eu precisava de tempo. Ao mesmo tempo, porém, sentia que devia fazer alguma coisa, pelo menos procurar entender a raiz de tanta violência. Com alguns amigos do movimento Jovens por um Mundo Unido (JMU), comecei a frequentar um albergue de homens sem teto. Talvez o fato de partilhar o sofrimento e as dificuldades de quem se encontra nas periferias do mundo pudesse me ajudar a “entender”. Vamos a este asilo todos os sábados: fazemos jogos, tocamos violão, assistimos a um jogo de futebol (durante a Copa do Mundo foi incrível!), às vezes jantamos juntos. E assim conhecemos as histórias deles, algumas realmente alucinantes. São pessoas que precisam de muita força, seja para perdoar quem fez mal a eles, seja para perdoar a si próprios. Mas, mais do que tudo, são pessoas que precisam recomeçar. Um grupo de especialistas os ajuda no processo de recuperação e o nosso papel é crescer com eles, sem nunca deixar que não sintam o nosso afeto. Que a este ponto, já experimentamos, é recíproco.

Estando com eles percebi que para muitos, que desde sempre foram tratados como pessoas que “não existem”, roubar é o último recurso. Eu mesma me perguntei: “O que eu faria no lugar deles se – como acontece – ninguém me olhasse, ninguém me respondesse, ninguém me considerasse?”. E foi assim que decidi perdoar os três ladrões daquela noite. E me dei conta que o fato de me reconciliar com eles colocava um tijolo para a construção da paz no meu país.

Em dezembro de 2013, por causa de uma greve da polícia, muitas pessoas aproveitaram para saquear escritórios e lojas. Roubaram até uma ONG que coleta e distribui alimentos para os pobres. Foi uma pequena guerra entre o povo, com desordens e caos. No dia seguinte, nós do JMU, mobilizamos nossos amigos, através das redes sociais, para limpar a cidade e também para conseguir comida para aquela ONG. No início éramos 15, depois chegamos a mais de 100 pessoas (além daquelas que levaram alimentos). À noite, as emissoras de TV que tinham feito a cobertura da iniciativa disseram que existe uma outra face da crônica e que não somente tudo havia sido limpo, mas que as crianças de um bairro muito pobre tinham podido comer.

Desde então, além de continuar a ir ao asilo para os homens da rua, outro grupo de JMU fez amizade com o asilo “Ângulo de Luz”, para onde foram levados os alimentos que recolhemos. Para começar, dada a proximidade com o Natal, os JMU procuraram presentinhos para todas as crianças e organizaram um presépio vivo. Depois precisava pensar na melhoria da infraestrutura, precária e insuficiente. Assim promoveram uma coleta de recursos, junto aos amigos, colegas da universidade, a própria família, e organizaram várias atividades e vendas de doces. Alguns jovens estão também ajudando nas oficinas de higiene bucal e de horto-cultura, enquanto o projeto continua com a construção de banheiros e a recuperação da instalação elétrica. Os JMU realmente arregaçaram as mangas. Mas o asilo também está fazendo a sua parte, como eles mesmos afirmam: “O asilo nos deu a possibilidade de sonhar coisas grandes e acreditar que ao nosso redor existem todas as mãos de que precisamos para levar tudo adiante. Basta dar o primeiro passo”»

Fonte: United World Project