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154_CelestinO Burundi obteve a independência da Bélgica em 1962. Em 1993, após o assassinato do presidente Hutu Ndadaye, desencadeou-se a guerra civil entre os Hutu e os Tutsi, que terminou em 2005. Mas, passados 10 anos, a situação política e social permanece muito crítica: pobreza, doenças, mortalidade infantil. Patrizia Mazzola entrevistou, em Humanidade Nova online, Célestin Sabiyumva, nascido no Burundi, casado, pai de quatro filhos.

Como você viveu esse conflito?
«Como um fracasso do ser humano. Os tempos de guerra são tempos de escuridão: para mim, como cristão, com a guerra perde-se aquela realidade pela qual o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. São momentos em que o homem, com tanta crueldade, não só tenta matar o irmão, mas o submete à tortura antes de matá-lo.

Eu nasci de pais provenientes de duas tribos diferentes, às quais sou muito afeiçoado. Eu me sentia bem quando ia à tribo de minha mãe e igualmente bem entre os familiares de meu pai. Entretanto, com minha esposa, e depois com nossos filhos e com todos aqueles que nasceram de casais mistos, não nos sentimos plenamente aceitos, nem de um lado nem de outro. Foi por esse motivo que fugimos do Burundi para o Quênia, depois para a Suécia, porque a nossa segurança esteve sempre ameaçada».

E como você enfrentou os momentos de perigo para a sua vida e a de sua família?
«Alguns dias antes do início da guerra, correndo muitos riscos, eu ajudei alguns vizinhos a fugirem para lugares mais seguros. Depois começou a guerra de verdade. Num vilarejo foram queimadas cem pessoas. Numa faculdade os estudantes mataram seus colegas e alguns vizinhos… depois o mesmo aconteceu no meu vilarejo. Começou o genocídio… eu não acreditava que estava chegando, para mim também, a hora de morrer com os outros. Eu estava noivo com aquela que hoje é minha esposa. Encontrei esconderijo no telhado de uma capela. Um batalhão que estava me procurando entrou na capela gritando o meu nome. Aterrorizado eu consegui somente dizer uma breve oração, pedindo perdão a Deus por todos os meus pecados e a força de perdoar os inimigos. Escutei o grito desesperado daqueles que foram torturados antes de morrer. Fiquei no telhado a noite inteira, com muito medo, mas também disposto a enfrentar a morte e oferecendo tudo isso pela paz em meu país. Na manhã seguinte encontrei as pessoas que conhecia, todas mortas. Até pessoas doentes tinham sido mortas dentro do hospital. Já eram três dias que eu não tinha notícias da minha noiva. Não sabia se ela tinha conseguido fugir do escritório onde trabalhava. Vi entre os corpos uma mulher que tinha o mesmo vestido que eu havia dado a ela. Fiquei desesperado e não tinha a coragem de virar o corpo para ver seu rosto. Alguém fez isso… não era ela! Eu me lembrei das palavras de Chiara Lubich durante a Segunda Guerra Mundial: “Tudo passa, tudo desmorona…”. A única realidade que não morre é Deus, aquele a quem eu dirigia as minhas orações. Participei do funeral dessas vítimas, todos sepultados num único túmulo».

O que aconteceu depois?
«Procurava-se alguém de confiança para receber, tomar conta e distribuir o que chegava da assistência humanitária para os desabrigados da guerra, e pediram que eu fizesse isso. Havia milhares de desabrigados de uma tribo, e os da outra tribo tinha encontrado refúgio num vale. Pediram-me para ajudar aqueles que um dia antes queriam matar-me: obviamente respondi que não. Depois recordei uma palavra do Evangelho que diz que não existe amor maior do que dar a própria vida pelo irmão. Eu estava pronto a morrer fisicamente pelo irmão, desconhecido e inimigo. Fui encontrar os meus amigos escoteiros e com a colaboração deles organizamos o serviço. Foi um trabalho em equipe… somente juntos nós podíamos superar o sofrimento pessoal».

Estar inserido na comunidade dos Focolares foi um apoio para você nessa fase “do perdão”? Conte-nos sobre o processo de reconciliação…
«Algumas pessoas vieram me pedir perdão por terem tentado me matar e por terem assassinado os meus amigos, e trouxeram algumas coisas que tinham sido roubadas da minha casa. Propuseram-me que enviasse ajuda inclusive àqueles que estavam escondidos no vale. Com a colaboração deles conseguimos levar ajuda e começar um diálogo que se concluiu bem: a reconciliação entre as duas tribos, pelo menos naquele vilarejo. Um processo longo para fazer com que a paz retorne ao país e aos corações.

Os membros da comunidade dos Focolares estavam trabalhando para esconder as pessoas que eram procuradas, prontos a morrer uns pelos outros. O testemunho dos seminaristas, num seminário menor no sul do país, é só um exemplo entre tantos: os rebeldes tinham chegado e separado os seminaristas, para matar só os pertencentes à tribo que eles queriam exterminar, mas os jovens disseram: “não podemos nos separar porque somos cristãos”. E por isso mataram todos.

Com a ajuda do grupo musical “Gen Sorriso”, as pessoas do Movimento em Bujumbura, a capital, organizaram vários shows, com músicas sobre a paz, doando-se com um amor concreto e promovendo o perdão entre as pessoas. Era suficiente vê-los juntos, sem distinções de origem, mais unidos do que nunca, para acreditar que a paz é possível, que o amor vence tudo».

Entrevista integral em Humanidade Nova online.