Márcia, de Sorocaba, nos conta como a família transformou o pequeno negócio em uma verdadeira “fábrica de solidariedade”.

“Neste momento de pandemia, estamos em casa apenas nós dois e nossa filha caçula, Gabriela. Temos um pequeno negócio de doces e pães caseiros. Sabendo que muitas pessoas estão passando necessidades, nos preocupamos em como poderíamos amar concretamente. Luís pensou em fazer pães para doar para algumas famílias que estivessem com dificuldade de se alimentar, mas nós não tínhamos condições financeiras para fazer muitos pães. Pensamos, então, em compartilhar essa ideia com outras pessoas, através de um grupo de WhatsApp. Várias pessoas logo aderiram a ideia e contribuíram para que saísse a primeira fornada de ‘pão solidário’. Quando outros souberam também quiseram ajudar e logo essa ação tornou-se uma corrente de solidariedade. Uma pessoa nos disse: ‘Vocês são o vento que agita as ondas do mar dos corações que estavam parados no egoísmo’.

Procuramos instituições que tivessem contato com famílias carentes, para que elas pudessem distribuir o que fizéssemos. Primeiramente, fomos à paróquia Padre Pio, cuja responsável pelos cadastros nos contou que ensinava às famílias sobre o vírus e a importância de lavar as mãos, mas falava também da dificuldade porque muitos não tinham máscaras e muito menos o próprio sabão para se proteger. Assim, eu que recentemente havia aprendido a fazer máscaras à mão pela televisão, senti de fazer o que conseguisse para doar junto com os pães. Gabriela, que estava com um projeto de fazer sabão de óleo de cozinha para a nossa casa, pensou que se podia fazer uma receita, poderia também fazer mais duas ou três para doar àquelas famílias.

Feito isso, começamos a divulgar pedidos de doação de ingredientes para os pães, tecidos para as máscaras e óleo de cozinha usado para o sabão, pois queríamos doar todas essas coisas também para outras instituições. Como toda obra inspirada por Jesus em Meio, não foi fácil continuar com a ação, pois tivemos percalços no meio do caminho.

Eu costurava à mão todas as máscaras e comecei a ter tendinite e muitas dores, mas, sabendo do ocorrido, uma conhecida dispôs sua máquina de costura para as confecções. Com alguns dias de uso, essa máquina apresentou defeitos impossibilitando a retomada. No entanto, outra conhecida logo disponibilizou também a sua máquina para utilizarmos, junto com 3 agulhas. Parecia uma provação, um dia, as agulhas começaram a quebrar uma atrás da outra… No final do dia uma outra pessoa pediu que passássemos em sua casa para pegar alguns tecidos que ela tinha para doar e quando fui buscar ela também nos doou mais 3 agulhas.

No começo do ano havíamos comprado uma masseira (máquina de sovar pão) para a nossa pequena empresa, pois Luís fazia todos os pães à mão e sofreu uma lesão no ombro, rompeu 3 tendões do braço. Diante disso, comprar a masseira foi a nossa opção para que a Gabriela pudesse produzir os pães no lugar do Luís. A compra dessa máquina foi o que possibilitou também que fizéssemos tantos pães por dia para as doações. No entanto, passado um mês de “padaria solidária”, as laterais da bacia da masseira começaram a rachar.

Pensamos que talvez estivéssemos forçando-a demais com tantos pães e tivemos medo de perdê-la, pois não teríamos dinheiro para comprar outra. Foi numa terça-feira. A cada rodada de pães sovados Luís e a Gabi rezavam para que a bacia não quebrasse de vez. Assim aconteceu durante todo o dia. No início da noite fomos notificados de que Luís receberia um auxílio doença do governo, por conta da lesão. Com esse valor conseguiríamos comprar peças para substituir as que haviam rachado.

Assim se passaram 3 meses e a Padaria Solidária não para, pois as doações não param de chegar, até mesmo de maneira inesperada, como por exemplo em um dia em que estávamos um pouco desanimados e recebemos uma doação de 100 quilos de farinha de um supermercado.

Até hoje já produzimos 1.429 pães, 1.100 sabões e 570 máscaras. O que nos possibilitou fazer parceria com 11 instituições que atingem cerca de 232 famílias, mais moradores de rua e crianças assistidas em casas de acolhimento.”