Leia a carta enviada pela Comissão de Arte do Movimento dos Focolares sobre o 16º Encontro dos Artistas, que aconteceu em São Paulo e reuniu cerca de 40 artistas de diferentes partes do Brasil.
Entre os dias 19 e 21 de setembro nos encontramos para o nosso 16º Encontro dos Artistas. Para esse ano, alugamos 3 casas vizinhas, a cerca de 50 minutos de São Paulo, para facilitar a participação de alguns artistas, tanto os que vinham de estados distantes, quanto de outros mais próximos e que por motivos variados de trabalho precisariam estar mais perto de aeroportos etc.
Na sexta feira o encontro já começou para alguns com uma visita guiada à Bienal de São Paulo, em cartaz no Ibirapuera. Outros foram chegando cedo, para ajudar a arrumar os espaços, dividir os quartos e esperar pela chegada de todos no final do dia. A noite da sexta foi de celebração e reencontro e o programa era muito especial: estar juntos e atualizar as notícias.



Ao todo passaram pelo encontro 40 artistas, das áreas do cinema, música, teatro, dança, artes visuais, poesia, design gráfico e moda, vindos de estados do Nordeste, Sudeste e Sul. De acordo com o que foi proposto no término de nosso encontro do ano passado, quando esboçamos o conteúdo para esse de 2025, demos continuidade ao tema da Decolonialidade, um assunto que perpassa com grande urgência a produção artística contemporânea, sobretudo para aqueles que vivem e produzem no Sul Global.
Esse ano, dando um passo à frente, nos debruçamos novamente no pensamento decolonial, mas trazendo como pano de fundo a Diáspora Africana, com todos os frutos e desafios decorrentes dela. Duas artistas da área da música, Kennya Macedo e Jussara Otaviano coordenaram esse momento inicial do encontro, trazendo de uma maneira contundente a realidade do artista negro no Brasil e o lugar de fala que ocupam no panorama das artes contemporâneas.
Na sequência a essa fala, Ana Clara e Pedro (ela atriz, ele da área de SLAM e Produção Musical), trouxeram o assim chamado Pacto da Branquitude, um conceito desenvolvido pela psicóloga Cida Bento, que descreve o acordo não verbalizado entre pessoas brancas para assegurar a manutenção de seus privilégios e posições de poder em lugares diversos,
com a decorrente exclusão de pessoas negras, pardas ou indígenas.



As duas apresentações se completaram de um modo muito integrado, gerando um intenso diálogo, troca de experiências, sugestões de leituras, mas sobretudo um profundo exame de consciência do lugar que nós artistas ocupamos no mundo e na sociedade que nos cerca, assim como nossa profunda responsabilidade perante injustiças estruturais.
No período da tarde, a Fernanda Almeida Prado, poeta e psicanalista de São Paulo, e Claudine Mello, também poeta e escritora, apresentaram uma fala sobre a Violência, trazendo sobretudo a questão de violências não verbalizadas, simbólicas, embutidas em atitudes de tutela, discriminação, estereótipos normalizados etc.
Na sequência o Luiz Paulo Iazetti e a Lorena Scarpel, ambos da área do cinema, nos apresentaram o diálogo entre as teóricas do cinema Lura Mulvey e Bell Horas, exemplificando como é importante considerar a questão de raça nos estudos cinematográficos. Depois vimos a experiência do cineasta senegalês Ousmane Sembène, o primeiro cineasta negro africano a produzir um longa-metragem e que se transformou em referência para todo o cinema daquele continente. Assistimos juntos a uma de suas produções, abrindo depois para uma conversa interpretativa do filme.




Na noite se sábado tivemos nosso tradicional Sarau, onde os artistas apresentam suas últimas produções, nas diversas áreas presentes ao encontro. Um momento de partilha concreta e muito esperado por todos. No domingo pela manhã Maria Betânia e Silva, professora doutora de Artes Visuais na Universidade Federal do Recife apresentou um trabalho sobre a construção das Narrativas contemporâneas, trazendo o desafio de olharmos para a construção de narrativas que cada um de nós faz, como cidadão e como artistas e da dificuldade recorrente que as pessoas encontram para manterem-se abertas a pensamentos e padrões diversos. Em sua apresentação a Arte aparece como uma possibilidade efetiva de diálogo, pautado em valores, certamente, mas também na disposição de abertura ao novo.
Encerrando o programa, o Pintor nos brindou com uma fantástica oficina de jogos teatrais, que todos pediram fosse repetida e ampliada no próximo ano. O momento final do encontro foi dedicado, como de costume, para a escuta de sugestões para o próximo ano, tanto de pautas, assuntos, oficinas e falas, como de opções de lugares, uma vez que prezamos a itinerância.
Nessa caminhada de 16 anos fica muito claro o vínculo que se formou entre o grupo de artistas e como esse mesmo vínculo proporciona acolhimento aos que chegam pela primeira vez. É muito gratificante ver artistas extremamente jovens dialogando com outros já maduros, assim como outros de áreas diversas em conversas profundas sobre seus papéis como produtores de cultura. É sempre mais clara a nossa vocação como um grupo de Diálogo, fomentador de estudos, de escuta e de partilha. Nas páginas seguintes algumas fotos desses dias.
Com um grande abraço, Pintor, Miriam, Luciano, César e Adriana. Pela Comissão da Arte.
