Para a advogada, cientista política e membro do Movimento Político Pela Unidade (MPPU Internacional) Rafaela Brito, a resposta é sim. Ela acompanhou um grupo de jovens lideranças de países de língua portuguesa para o encerramento da 1ª etapa da Escola de Política Global “Uma Humanidade, Um Planeta: Liderança Sinodal”, que reuniu cerca de 100 jovens, de 36 países, para um Hackathon: uma espécie de maratona com pessoas interessadas em resolver questões de determinada área, durante um curto período de tempo.
A advogada e estudante da Escola, Daiane Nascimento, compartilha que o evento destacou a fraternidade como categoria política. “É o momento que nos dá esperança e nos faz acreditar que fazer política pública baseada em dados e evidências é construir uma cidade, um país cada vez melhor.”
Uma política fraterna e sinodal: com as pessoas e para as pessoas

O evento aconteceu entre 25 de janeiro e 1º de fevereiro, em Roma, promovido e idealizado pelo MPPU Internacional e pelo New Humanity, com o objetivo de encerrar um ciclo formativo virtual que as lideranças participaram ao longo de 2025.
Rafaela conta que a Escola de Política Global nasceu a partir da Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Querida Amazônia”, escrita pelo Papa Francisco.
“Francisco destrinchou seu sonho para a Amazônia – e consequentemente para todo o mundo – em 4 partes: social, cultural, ecológico e eclesial. Do sonho social, nasce a Política Sinodal: com as pessoas e para as pessoas. E para trabalhar por este sonho, recebemos um financiamento para a América Latina”, explica a advogada.

A partir da Política Sinodal, uma comissão internacional decidiu desenvolver uma metodologia sinodal voltada à juventude em formação política. Foram realizados encontros quinzenais com os grupos selecionados, organizados por idioma. Durante o processo, cada participante contou com o acompanhamento de um mentor ou mentora, favorecendo o diálogo, a troca de experiências e a partilha dos desafios e das alegrias da vida política.
“Nesse processo, tive a oportunidade de acompanhar jovens de diferentes idades que, mesmo se conhecendo inicialmente on-line, criaram um verdadeiro laço de comunidade”, compartilha Rafaela.
Metodologia sinodal, com diálogos e vivências

Diálogo, interatividade e curiosidade marcaram o Hackathon. O programa contou com workshops, apresentações, dinâmicas em grupo e encontros com lideranças políticas. Todos os dias, porém, ao meio-dia, a programação era interrompida para um momento especial de reflexão pela paz: o Time Out.
Essa ferramenta metodológica propõe um minuto de silêncio com o objetivo de criar uma corrente mundial pela paz. A proposta foi feita por Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, referência no ecumenismo e no diálogo inter-religioso, para que, a toda hora, haja alguém, em algum lugar do mundo, vivendo pela paz universal.



Mesmo sem compartilharem o mesmo idioma, os(as) participantes empenharam-se em viver uma experiência coletiva de fraternidade. Nos trabalhos em grupo, buscaram soluções para diferentes desafios e, em determinado momento, cada pessoa escolheu um laboratório, que reunia iniciativas de compromisso civil, socioassistencial e cultural na cidade:
1- Centro Astalli/Jesuit Refugee Service: atua com migrantes e refugiados.
2- Casa Magnificat Roma: atua com mulheres que foram traficadas e violentadas.
3- Projeto “Sempre Persona”: atua com pessoas em situação de cárcere e com suas famílias.
4️- IRIAD/ Arquivo Desarmamento: atua como um centro de pesquisa.
5- Labsus/ Laboratório para a Subsidiariedade: promove a cidadania ativa e a administração compartilhada de bens comuns.
6️- Caritas Italiana: promove ações para pedir o perdão das dívidas dos países mais pobres.
Rafaela optou pelo primeiro grupo, no centro de refugiados dos Jesuítas, onde viveu uma tocante experiência de diálogo inter-religioso.

“Até então, o grupo não sabia que uma das jovens muçulmanas trabalhava em um centro dos jesuítas na Argélia. Quando chegamos lá, ela contou que sempre sentiu-se muito bem acolhida, apesar de cultivar uma fé diferente dos Jesuítas. Ela disse que escolheu esse grupo para entender se sentiria o mesmo acolhimento em Roma, e afirmou que nada havia mudado!”
O encontro com o Papa Leão XIV

Com o falecimento do Papa Francisco, seu sucessor, Leão XIV, optou por dar continuidade a esse sonho sinodal. Um dos momentos mais aguardados da Escola Global foi a audiência com o pontífice, que encorajou os jovens a se comprometerem com a paz:
“Quão urgente é dedicar as melhores energias ao cuidado dessas áreas, especialmente em tempos marcados por muitas injustiças, violência e guerra! Hoje, o seu papel de líderes implica, portanto, uma responsabilidade crescente pela paz: não apenas entre as nações, mas também onde vocês moram, estudam e trabalham todos os dias”.
Para o Papa, os jovens redigiram uma mensagem em espanhol e português, as línguas mais faladas entre os(as) participantes:
Santo Padre, este no es solo un saludo, es el compromiso global de acción colectiva de jóvenes por la paz junto a León XIV:
• Vinimos para poner en marcha el “Sueno Social” de Querida Amazonia, y conformar desde la diversidad “Una Humanidad, un Planeta”,
• Nos entrenamos en “liderazgo Sinodal”,
• Nos vamos con la certeza de que la política puede y debe cambiar, estamos decididos a hacerlo, no somos espectadores del caos, elegimos asumir esa responsabilidad.
Sabemos que Vossa Santidade conhece de perto as divisões de nossas sociedades. Por isso, estamos aqui para:
● apoiar sua missão como líder global em favor da paz;
● ajudá-lo a “construir pontes” a partir da política fraterna, como força transformadora voltada ao cuidado da vida em comum;
● reconstruir os laços sociais que possibilitam o diálogo como a “melhor política”, em cada país e em cada território, com ações concretas, coragem e esperança.

A partir de agora, inicia-se a segunda etapa do programa, com a expectativa de envolver cerca de 600 jovens dos cinco continentes, liderados pelos(as) participantes da primeira fase.
“Tudo o que fica no meu coração é ter visto o compromisso e a seriedade desses jovens”, conclui Rafaela.
O jovem Marcos Felyppe destacou que, em breve, será lançado um processo seletivo para quem desejar participar da segunda etapa do programa no Brasil.
