Maria de Lourdes: nossa querida Lilu, uma das primeiras focolarinas do Brasil

Maria de Lourdes: nossa querida Lilu, uma das primeiras focolarinas do Brasil

A primeira vez que esteve com Chiara Lubich foi na Mariápolis de 1959. Nesse encontro com a fundadora do Movimento dos Focolares, Lilu sentiu o chamado para entrar no Focolare.

Ao ouvir falar de Jesus Abandonado, nasceu nela o desejo profundo de se doar totalmente a Deus. Chiara, surpresa, perguntou se era realmente isso que ela queria. Lilu respondeu que sim, e Chiara acrescentou: “Vejo que Maria te pegou no meio do caminho”. Com seu jeito simples e decidido, Lilu costumava dizer: “Eu entrei pela janela”.
Assim começou sua entrega generosa, que marcou para sempre a história do Movimento no Brasil.

Hoje, com imensa gratidão a Deus, queremos dizer: Obrigado, Lilu!!!
Você partiu silenciosamente ao encontro do Pai, como viveu toda a sua vida: com humildade, simplicidade e amor. Somos imensamente gratos por sua vida e por sua total doação.

Maria de Lourdes Amazonas MacDowell (Lilu) – A primeira focolarina brasileira

“…Porque olhou a humildade de sua serva”. (Lc 1,48)      

A vida de Lilu é muito rica e foi relatada por ela mesma em muitas circunstâncias em que testemunhou a sua história. São palavras suas:

“Nasci em Recife, em uma família numerosa, com 10 irmãos. Minha família foi morar em Camaragibe. Terminei o curso secundário com uma grande crise existencial. Aparentemente tinha tudo para ser feliz: uma bela família, riqueza, viagens, divertimento, porém nada me satisfazia. Embora minha mãe fosse muito religiosa, eu cultivava um Deus muito distante, como um ser superior. Uma fé de tradição.

Olhava o mundo ao redor e via sofrimentos e injustiça e dentro de mim nascia muitas perguntas sobre o porquê da vida. Fui estudar Filosofia pensando que teria as respostas, mas depois do entusiasmo inicial veio a decepção. Como encontrar em teorias o sentido da vida?

Em 1958, fui com algumas amigas para uma viagem à Europa: Portugal, Espanha, França me fascinaram com suas obras de arte. Mas voltava o vazio, os porquês sem resposta.  No mês de setembro estive em Lourdes, se celebrava o centenário das aparições, e ali nos pés de Maria fiz uma oração e pedi a Maria que me fizesse entender o sentido da vida.

Poucos dias depois chegamos em Roma e um sacerdote brasileiro me convidou para conhecer um movimento novo que estava surgindo. Fui acolhida por Fiore, que estava se preparando para vir ao Brasil. Escutando a história do Movimento intuí algo de grande por baixo daquelas palavras, embora não entendesse bem e prosseguimos nossa tournée por vários países.
Em junho de 1959, me encontrava em Londres quando recebemos uma carta de Fiore que nos convidava para a mariápolis de 1959. Minhas amigas não se interessaram, mas eu decidi: eu vou. Aguardava que chegássemos a França e de lá iria para Trento. Mas houve uma série de imprevistos e chegamos a Paris no final de agosto. Fui ao consulado procurar correspondência da família e encontrei uma carta de Fiore. “A mariápolis vai ser adiada por mais 10 dias”. Não tinha tempo a perder e naquela noite mesmo eu parti. Parecia uma loucura, me sentia impulsionada dentro por Alguém de um modo quase irresistível.

Na estação estava Lia, que tinha vindo ao Brasil com Marco e Fiore. A mariápolis revolucionou minha vida. Paz, alegria, plenitude. Uma única grande família. O segredo: Jesus Abandonado, resposta a todos os porquês: Se fez escuridão para nos dar luz, se fez angustia para nos dar a paz; se fez solidão para nos dar a companhia do Pai. A dor, a cruz eram porta. Um sentido novo. Se Jesus sofreu tanto, também eu deveria dar tudo.  Escolher Jesus como Tudo.

 No dia 8 de setembro, festa da natividade de Maria, Chiara quis se encontrar com o grupo das brasileiras. (Algumas tinham vindo diretamente de Recife). Foi um momento único e inesquecível. Falou com cada uma em particular. Quando chegou a minha vez eu disse que queria seguir Deus na sua estrada e estava pronta a deixar tudo, logo. Chiara me olhou um pouco surpresa e perguntou: e sua família, os estudos, como vai fazer? (Na verdade não me parecia de deixar nada porque tinha encontrado o Tudo!) Vendo a minha decisão firme, Chiara disse “ Se vê que Nossa Senhora lhe chamou na metade da estrada”. E como não havia ainda um focolare no Brasil ela pensou em levar-me para um focolare em Roma onde a vida com Jesus em meio me parecia um “retorno aos tempos de Jesus”. Desde então Maria me conduziu sempre em frente nesta divina aventura, maravilhosa aventura.

Em 1960 recebi de Chiara a minha Palavra de Vida “… porque olhou para a humildade de sua serva” (Lc 1,48). Voltei ao Brasil e enfrentei a oposição de minha mãe porque ela descobriu que o movimento não era aprovado pela Igreja. Em 1961 fui com ela para falar com o arcebispo D. Carlos Coelho, que disse: “Quando Deus chama os pais não podem impedir…”

Prossegue a divina aventura do amor de Deus sempre novo: Recife – Belém – São Paulo – Roma. Estive fora do Brasil por mais de 40 anos. Deus me concedeu o dom de trabalhar por 14 anos na secretaria de Chiara, muitas vezes na sua própria casa.  Depois fui para Istambul na Turquia, país na sua maioria muçulmano. Do oriente médio fui para o extremo ocidente: Portugal. E enfim um grande voo para o extremo oriente, Tóquio, no Japão onde a população é prevalentemente xintoísta e budista. Para mim foi um grande enriquecimento conviver com povos de culturas e religiões tão diversas e comprovar como o ideal é universal. Depois, retornei ao Brasil em 2014, e o amor de Deus me trouxe justamente para a mariápolis Santa Maria que vi nascer em 1965. È dificil exprimir a alegria e comoção que me invadiram ao constatar que as palavras proféticas de Chiara em 1965 se tornaram realidade. “Entre os coqueirais uma cidade está surgindo, a mariápolis no Brasil é realidade.. Continuo a divina aventura do Amor de Deus e de Maria na minha vida”.

Na Mariápolis, Lilu passou a participar dos encontros, escolas de formação, onde com alegria e generosidade, contava aos jovens, crianças, adultos as suas aventuras que preparou ilustrando com fotos. Retomou o contato com os familiares e procurava se fazer presente nas datas especiais.

Em 2023/24, começaram a aparecer sinais que a doação que Lilu viveu de forma tão intensa e radical estava para sofrer uma transformação: e embora falando muito pouco, ela sempre acolhia com um sorriso todos que chegavam no focolare, e se deixava fotografar com doçura.

A partir de maio de 2025 começaram a se acentuar os sintomas da provação que Jesus Abandonado lhe confiou como esposa fiel: descobrimos um tumor que foi se agravando até que foi hospitalizada em setembro.

A terapeuta da Clínica que fez um prontuário afetivo lhe perguntou a poucos dias. Os meus amores: Jesus, a família, a comunidade. O que mais importa? Respondeu: o amor recíproco!

Sempre consciente, rezando e oferecendo tudo pela Obra, pela paz no mundo, por tudo que lhe comunicávamos. Acolhia com um sorriso quem chegava até ela. Ontem à noite, nós estivemos com ela e cantamos as canções dos primeiros tempos que ela gostava. Então chegou o momento em que Deus a chamou para si e ela partiu suavemente.

Texto editado em 06 de outubro de 2025.

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