Entre os dias 05 e 17 de julho de 2025, após encontros online de preparação, aconteceu o Projeto Amazônia 2025 na Região do Rio Xingu em plena Transamazônica, mais precisamente no município mais extenso do Brasil: Altamira. O objetivo do projeto foi levar assistência médica, odontológica, psicológica, educacional e espiritual, para cada pessoa que precisasse do suporte.
No total, os 32 voluntários de todo o países realizaram 3.321 atendimentos, com o apoio dos 88 voluntários locais que se somaram ao grupo.
A equipe compartilhou conosco, em primeira mão, como foi o projeto.
Diário do Projeto Amazônia




Estivemos na zona rural do Assurini e na periferia da cidade. Depois continuamos na cidade de Medicilândia que fica a 90 km de Altamira. Éramos 32 pessoas provenientes de vários estados do Brasil.
O grupo tinha bem em mente que estávamos ali nos empenhando em colocar em prática a mensagem de Jesus “Foi a mim que o fizeste” (Mt, 25,40), desta vez através da assistência médica, odontológica, psicológica, educacional, espiritual, etc…. e que cada pessoa que nos procurasse deveria sentir-se amada e escutada.
No dia da abertura do projeto já começamos a separar as doações recolhidas nas comunidades dos Focolares de várias partes do Brasil, e nos maravilhávamos com cada caixa aberta com tantos kits de escovação para as crianças, material de higiene, roupas, algumas ainda com a etiqueta, calçados para todas as idades e até material de pintura para fazer a oficina com as crianças. Tudo coisas vindas pela transportadora e esta paga com a comunhão de bens dos membros do Focolare de Altamira que foi super, hiper generosa. E como se não bastasse, todos ali se empenharam em nos receber com todo o amor e carinho, até com faixas de boas vindas no aeroporto. Foram eles que acionaram a Prefeitura de Altamira que nos doou o transporte e os ingredientes para cozinhar as refeições durante os dias do Projeto.
O Bispo do Xingu, Dom João veio celebrar a missa de envio e estava muito feliz com mais uma edição do Projeto na sua Diocese, recordou com humor a generosidade do povo paraense que segundo ele não ia medir esforços para nos proporcionar fartura em alimentos característicos da região.
Na localidade do Sol Nascente (região Assurini) fomos hospedados nas casas de alguns moradores e do Padre Bento (pároco da região) que também colocou à nossa disposição o barracão da paróquia onde se podia dormir nas redes e fazer as refeições. Padre Bento também disponibilizou um grupo de paroquianos para preparar as nossas refeições. Ficamos ali dois dias e meio convivendo e ajudando um povo sofrido que mora longe da cidade, usa meios de transportes precários e a assistência social e hospitalar são quase inexistentes, mas que nos proporcionaram coisas muito valiosas, uma voluntária disse que descobriu a grandeza da alma das pessoas pobres e o quanto que devia melhorar para estar à altura.
Em seguida, nos mudamos para outra localidade, mas na mesma paróquia, chamada Quatro Bocas, e ali ficamos hospedados em maioria nas casas dos funcionários da Prefeitura ou dos roceiros e chacareiros. Uma experiência única que nos fez mergulhar na cultura local.






No primeiro dia à noite nos reunimos para contar como tinha sido e lemos uma oração de Chiara Lubich que dizia: “Senhor, dá-me os que estão sós… Meu Deus, faz que eu seja no mundo o sacramento tangível do Teu Amor, do Teu ser Amor.”
Muitos se diziam surpresos que as coisas tinham sido diferentes de como haviam pensado ou planejado, mas cada um fez a experiência de colocar de lado os planos e estar abertos para os novos desafios, para amar cada um do jeito que era e segundo as situações que se apresentaram.
A Oficina de pintura contemplava crianças e adultos, assim como a do Dado da Paz e a Oficina de “Crochê com roda de conversa”. As instrutoras notaram que muitas crianças chegavam fechadas, tímidas e depois com uma conversa e as atividades iam se soltando. Teve criança que recortando o dado da Paz fez uma pergunta sobre Jesus e outra pediu uma Bíblia. O dado também foi solicitado pelas professoras para ser aplicado nas escolas e nas aulas de catequese. Este apresenta as seguints faces: amar a todos, amar o outro, amar uns aos outros, perdoar uns aos outros, ser o primeiro a amar e escutar o outro. Ao jogar o dado, se faz o propósito de colocar em prática a frase escrita do lado de cima. As médicas que ao mesmo tempo consultavam as pessoas disseram que essas oficinas pareciam ser o começo da cura delas, ao que durante o Projeto foi cunhado o termo DADOTERAPIA.
A equipe médica era composta de um clínico geral já em fase de aposentadoria, uma clínica geral recém-formada, uma estudante de medicina no sexto semestre e duas enfermeiras. A médica recém formada nos contou que através dessa experiência passou a ver a sua profissão no seu lado mais puro e verdadeiro, e que havia se reencontrado com a medicina, longe de ser aquela correria cotidiana onde se acaba vendo somente uma pessoa doente, e não inteira, na sua dignidade.
A estudante de medicina disse que a recepção do povo local no aeroporto já lhe fez sentir em família e lhe deu força para vencer o medo dos animais, transportes hidroviários e outros desafios. E que também se sentiu em plena comunhão com a convivência entre as várias gerações.
Os dentistas eram dois: um já aposentado e outra ainda na ativa, e disseram que a unidade entre eles foi imediata pois os procedimentos que um não se sentia de fazer, o outro assumia. Disseram que, diante de pessoas que se apresentaram com dificuldades, bastava um olhar para entender qual atitude tomar, ao que muitas vezes um ficava rezando enquanto o outro agia. E deu tudo muito certo… aliás melhor do que pensavam.
As duas psicólogas tiveram muito trabalho, pois foram tantos os problemas emocionais que se apresentaram, pois esta é uma região composta em boa parte por habitantes vindos de outras partes do Brasil à procura de terras e enfrentando grandes desafios. Se percebeu que a saúde emocional e mental da população é comprometida: problemas como alcoolismo, violência doméstica e desarmonia no trabalho são muito comuns.
As psicólogas diziam que o fato de saber que depois elas iriam embora e não voltariam mais a ver aquele paciente, fazia com que elas, na medida do possível, já procurassem fazer uma terapia com começo, meio e fim. Foi um trabalho muito desgastante mas diziam que se sentiam plenamente vivendo por uma causa muito maior e isso lhes preenchia de tantos bons sentimentos.
Um outro trabalho que fizemos no Projeto e muito importante para a região, foi a Consultoria Jurídica e Previdenciária. No Brasil as pessoas vulneráveis tem seus direitos garantidos por lei, mas muitas vezes não sabendo como agir recorrem à escritórios de advocacia que normalmente se aproveitam da situação para ganhar boa parte do benefício que seria destinado àquela pessoa. Assim esse trabalho feito por uma advogada e uma assistente foi e é de suma importância, também foram dadas orientações sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Com esse mesmo espírito de doação, o grupo, depois de uma semana se dividiu e, metade foi para a cidade de Medicilândia e outra para o Reassentamento Urbano Santa Benedita na periferia de Altamira.
Em Santa Benedita os voluntários atenderam também a população de Lama Negra, um bairro vizinho em situação de vulnerabilidade quase extrema. Um ponto forte ali foi a Oficina com as crianças, conduzidas por 3 jovens pedagogos de Guarulhos-SP com experiência escolar. Eles montaram uma oficina com brincadeiras que ajudava na socialização, no desenvolvimento e na criatividade.
O brechó do Santa Benedita, foi extremamente útil, pois percebemos que a população da cidade sem o vestuário adequado sofre muito, e principalmente as crianças começam a fazer bullying umas com as outras. Também nesse sentido a oficina de jogos foi importante, para promover o respeito ao outro.
A oficina sobre a Saúde da Mulher ofereceu reflexões sobre o amor próprio, auto estima, auto cuidado, com instruções sobre o auto exame das mamas para prevenir complicações e lidar com o câncer de mama o mais cedo possivel. Apresentando e divulgando uma ONG de Piracicaba “Amigas da Onça”, que fornece próteses gratuitas pra quem fez cirurgia de retirada da(s) mama(s). Uma senhora que já havia realizado esse procedimento há cinco anos, mas ainda não tinha uma prótese adequada ficou muito feliz ao receber um exemplar em uma das oficinas, pois era algo que ela desejava muito. Interessante que homens também se interessavam em participar dessa oficina e saber um pouco mais sobre a Saúde da Mulher.
A oficina de terapia auricular foi muito procurada, inúmeros foram os atendimentos inclusive dos voluntários do projeto. Aproveitando o momento de relax das pessoas da comunidade durante a terapia, a terapeuta encaminhava as pessoas para outros atendimentos do projeto. Assim eles recebiam outros cuidados mais apropriados segundo suas necessidades. Impressionante o número de pessoas com problemas emocionais e ansiedade.
Em Medicilância fizemos uma parceria muito produtiva com a Prefeitura através da Vice-prefeita, da secretária da Assistência Social e do Secretário da saúde. Chegamos ali através da Rejane, que por muito tempo foi gen em Altamira, ela trabalha na prefeitura de Medicilância e quando ficou sabendo do projeto nos fez a proposta de ir até lá. Fomos colocados também em contato com o pároco de Medicilândia, Padre Vandeí que nos ofereceu além da casa de encontros da paróquia onde ficamos hospedados, a sua equipe para preparação dos alimentos e manutenção da casa.
Além dos voluntários do Projeto, mais 30 voluntários locais se disponibilizaram para nos ajudar. Assim foram adicionadas: mais um médico, uma artesã que ministrou a oficina para a produção de bio jóias, fisioterapia, massoterapia, mais uma psicóloga, uma Orientadora previdenciária, posto de vacinação e várias assistente sociais.
A oficina de espiritualidade foi um ponto muito importante seja no Assurini que em Medicilândia, porque em uma região onde a maioria deixou a Igreja Católica por falta de assistência espiritual e abraçou o Pentecostalismo, todos se sentiram plenamente acolhidos. Alguns estavam maravilhados de saber que a maioria de nós éramos católicos e estávamos fazendo esse trabalho, e tinha gente que queria repetir novamente a oficina. Outros preferiam conversar em particular com a instrutora para expor seus problemas e receber orientações. Até a vice-prefeita participou desta oficina e disse que se sentiu muito ajudada.
Os jovens do projeto que foram para Medicilândia saíram um dia pelas ruas da cidade e encontraram um grupo de homens em situação de rua, se aproximaram deles para convidar para o projeto e um deles muito surpreso disse: “não sei como vocês tem coragem de se aproximar da gente!”. Outro disse ainda que naquela situação chega até a ver na sua frente o demônio. No outro dia os jovens voltaram até eles para fazer atendimento médico na rua mesmo, visto que eles naquela situação não tem coragem de se aproximar do posto de saúde. Foi uma experiência impactante onde os jovens puderam tocar de perto o sofrimento da humanidade.
Ainda em Medicilância foram feitas duas atividades que marcaram a assistência social da cidade: “O primeiro curso de cuidadores da cidade” (que já tinha sido feito em Quatro bocas com a participação de 19 alunos) com 18 participantes. Maioria destes já trabalhava no ramo, inclusive na Casa de Idosos de Medicilância mas sem capacitação. O curso foi ministrado pelas nossas duas voluntárias que já ministram o mesmo curso na Universidade do Rio Grande do Sul. Elas começaram já as aulas online antes de vir para o projeto e depois trouxeram a parte prática. Foi um sucesso! Os alunos estavam super felizes no dia da certificação.
A segunda atividade foi a palestra para os conselheiros tutelares ministrado pela nossa advogada que desde 2020 é Presidente da Comissão da Defesa dos Direitos da Criança e Adolescentes na OAB de Altamira. Ela falou sobre “Estratégias de atuação para o Conselho Tutelar” dando orientações sobre como lidar com as distorções da função e evitar práticas errôneas por simplesmente desconhecer as leis, também falou sobre a necessidade de aprofundar o ECA. Além dos conselheiros tutelares e quatro participantes do Colegiado do Conselho, estava presente também uma advogada da Secretaria de Assistência Social do Município que se encarregou de continuar posteriormente a formação dos Conselheiros. Ao todo foram 8 os participantes que receberam essa capacitação.
Saímos de Medicilândia com a impressão de que o Projeto foi um marco na política pública da cidade, além de que nasceu uma comunidade de pessoas que quer viver por um mundo melhor. Muitas pessoas vieram nos dizer que querem estar com a gente para os próximos projetos, e outros até querem uma ligação mais aprofundada com o Movimento dos Focolares.
Quando fizemos a reunião no final do Projeto, algumas pessoas disseram que participar do Projeto foi um desejo realizado de fazer voluntariado verdadeiro. Outra disse que veio sem saber nada do Projeto e nem do Movimento, mas saia dali com uma grande gratidão por ter conhecido o povo do Norte do Brasil e descobrir que o que se fala sobre eles no Sul não tem nada a ver com o que viu e experimentou. E outra disse que o projeto foi uma inspiração que vai levar pra toda a vida. Disseram também que os jovens foram a alma do Projeto. Entre os 32 voluntários, 10 eram jovens.
Fotos: Projeto Amazônia 2025.