Entre os dias 02 e 04 de março, na Wiston House, no Reino Unido, um grupo restrito de 45 mulheres de diferentes países reuniram-se para fortalecer a colaboração perante o enfrentamento à crise climática global. O encontro foi uma atividade da “Rede Mulheres, Fé e Clima: Ampliando a Colaboração Radical” (em inglês: Women, Faith & Climate Network), promovido pelo Movimento Laudato Sí, em parceria com o Foreign, Commonwealth & Development Office, o The Dandelion Project e a própria Rede.

Considerando que 80% da população mundial se identifica com alguma religião, a iniciativa promove boas práticas e mobiliza redes religiosas em escala global, além de ampliar a visibilidade de ações climáticas lideradas por mulheres.
Atualmente, mulheres de 15 países e 8 tradições religiosas estão engajadas nessa colaboração, impactando mais de 73 milhões de pessoas no mundo.
Entre elas esteve a focolarina brasileira Vaudete Bueno (consagrada do Movimento dos Focolares), representando o Movimento dos Focolares à nível de mundo. O convite foi feito pela Diretora Executiva do Movimento Laudato Si’, Lorna Gold, que esteve no Brasil em 2025 e conheceu Vaudete na Mariápolis Ginetta (Vargem Grande Paulista – SP), trabalhando com a juventude local.

Corações abertos ao diálogo
Sessões plenárias e grupos de trabalho formaram a programação do encontro, que visava um grande objetivo: elaborar um plano de ação ambicioso, visando expandir a Rede e fortalecer parcerias entre grupos religiosos e atores seculares na promoção da agenda de clima e gênero.
Vaudete compartilha como foi a experiência: “Todas as participantes estiveram com o coração aberto ao diálogo. Unidas por um mesmo propósito, procurávamos refletir e colaborar na construção de redes capazes de enfrentar, juntas, as crises espirituais e ecológicas que hoje desafiam a humanidade em nível global. Foi uma experiência extremamente rica de diálogo a 360°”.


Segundo Vaudete, cada plenária iniciava com reflexões profundas inspiradas nas tradições religiosas ligadas ao tempo espiritual que vivemos neste período: Quaresma, Ramadan, Purim e Holi.
A focolarina conta que teve a oportunidade de preparar uma dessas reflexões juntamente com uma jovem muçulmana libanesa. Elas se encontraram duas vezes previamente, por meio do Zoom, mas ao se encontrarem pessoalmente tiveram a impressão de já serem amigas.

“Lá, durante o trajeto do aeroporto até o local do encontro, ela compartilhou comigo uma notícia dolorosa: acabara de saber que uma amiga sua, juntamente com os pais, havia sido vítima de um bombardeio ocorrido na noite anterior no Líbano. Fiquei profundamente impressionada; naquele momento senti a realidade da guerra muito de perto, através da dor que ela carregava no coração”, narra Vaudete.
Também o encontro foi impactado pelas guerras emergentes. Algumas mulheres convidadas não puderam participar presencialmente devido ao cancelamento de voos.
Uma colaboração radical

A Dra. Mary Robson, ex-presidente da Irlanda e fundadora do projeto Dandelion, abriu o primeiro dia do encontro como uma das principais conferencistas, conduzindo o diálogo ao objetivo central do encontro: uma colaboração radical, profundamente enraizada nos princípios espirituais.
Robson propôs três compromissos fundamentais:
- Cultivar juntas a prática do “coração ferido”, isto é, abrir o coração para acolher as dores da humanidade;
- Empenhar-se, na medida do possível, em curar as feridas existentes;
- Trabalhar em colaboração, partilhando plataformas, confiança e solidariedade.
Em seguida, a Dra. Lorna Gold, diretora executiva do Movimento Laudato Si’, ressaltou com força a importância de uma colaboração verdadeiramente radical entre as organizações.
“Lorna destacou que não basta promover encontros pontuais; é necessário desenvolver estratégias comuns. Tudo deve estar interligado: recursos, plataformas, iniciativas e até mesmo os riscos assumidos”, complementa.
A rede reconhece que as mulheres de fé desempenham um papel fundamental na resposta aos desafios atuais e na difusão de iniciativas concretas. Embora as mulheres sejam frequentemente as mais impactadas pelas mudanças climáticas, suas vozes continuam, em grande parte, ausentes das principais agendas globais.
Unidade na prática


E Vaudate não foi a única brasileira presente no encontro. Também Rayana Burgos, uma jovem brasileira pertencente à Umbanda e fundadora de uma rede de terreiros voltada à defesa do meio ambiente relatou os desafios e os medos que enfrenta devido ao preconceito contra sua religião e também por ser mulher, especialmente neste momento de forte polarização política e disseminação de fake news.
“Entre nós surgiu imediatamente uma profunda conexão. Disse-lhe que não está sozinha e manifestei o desejo de colocá-la em contato com o Focolare. Ela havia participado do encontro ‘Rise and Hope’ e comentou que ficou profundamente tocada pela experiência do Focolare.”
Não faltaram ocasiões para a focolarina apresentar o Carisma da Unidade. “Durante as partilhas, apresentei experiências, iniciativas e objetivos vividos na Obra de Maria. Comprometi-me igualmente a colaborar oferecendo experiências e materiais de espiritualidade que possam contribuir para a formação e continuidade da rede”.
Nos momentos finais do encontro, as participantes ouviram a Dra. Azza Karam, presidente e CEO da organização Lead Integrity. Refletindo sobre a dramática situação de guerras que marca o mundo atual, ela exortou a não permanecerem fechadas na lógica dos recursos ou da identidade isolada de cada organização. Ao contrário, encorajou as mulheres a compartilharem as dores e a caminhar de mãos dadas.
Vaudete retornou ao Brasil com inúmeras experiências compartilhadas, reflexões sobre caminhos para concretizar essa colaboração radical ao longo dos próximos cinco anos e com o coração profundamente cheio de alegria e esperança.
“Aquilo que já vivemos cotidianamente no Carisma da Unidade pude experimentar de forma muito concreta nesses três dias, mesmo em meio a um grupo tão diverso de pessoas e tradições. Dentro de mim ecoaram com grande força as palavras do testamento de Jesus: ‘Que todos sejam um, para que o mundo creia’.”
Fotos oficiais cedidas por Wilton Park, para uso do Movimento Laudato Si’.